Fim de papo
Na milésima segunda noite,
Sherazzade degolou o sultão.
Antônio Carlos Secchin
Fora do domínio da razão
Judite, jovem, atraente e viúva, vive na cidade de Betúlia que, ameaçada pelo general Holofernes cujo exército é conhecido pela crueldade, tem cortados os acessos a poços de água e alimento. Se enfraquecidos, pensou Holofernes, ele conquistaria a cidade com maior facilidade. De fato, o povo sedento e faminto se reúne e desespera na praça pública, até que Judite, junto com sua serva, planeja e coloca em ação seu plano. É um plano de sedução.
Determinada, sai dos muros da cidade levando frutas, queijos e vinhos, e caminha em direção ao acampamento de Holofernes. Lá, ela promete dar informações úteis para que o general conquiste a cidade. Animado - excitado - não só com a notícia, mas com a presença da mulher, lhe oferece tenda, comida e passe livre para andar pelo acampamento com ordens explícitas de não a incomodarem.
Judite avança em seu plano, se ambienta com os espaços do terreno inimigo, promete dizer no primeiro dia: não diz. Também não diz no segundo dia. Mas é na terceira noite que ela se dirige à tenda de Holofernes. Diz o texto apócrifo que Judite aparece vestida, maquiada e com suas melhores joias. O general a deseja. Ela o alimenta,
lhe oferece um generoso pedaço de queijo. Como previra, Holofernes gosta do queijo e também do vinho forte. Mas o queijo, propositalmente muito salgado, o fez ter muita sede, que procura saciar com enorme quantidade de vinho. A festa avançava noite adentro e os empregados se retiraram, deixando Holofernes a sós com sua conquista. Assim que Judite se viu diante dele, bêbado e largado em seu leito, quase afogado em vinho, ela correu a avisar a serva para ficar de prontidão, à entrada da tenda.
Judite decepa Holofernes com a espada que ele empunhava. Diz o livro homônimo que “Isto feito, [ela] procurou se acalmar; envolveu a cabeça do general em trapos e a escondeu sob seu manto”. Na cesta em que vieram os alimentos, agora voltaria a cabeça do grande general assírio.
Avisados do que acontecera, e munidos das informações sobre o acampamento inimigo, de manhã, os judeus de Betúlia atacaram. Os assírios, ao procurarem por Holofernes na tenda, encontraram apenas um corpo acéfalo. Desnorteados, não houve quem assumisse o comando e perderam a guerra.
Um modo de perder a cabeça
Pela iluminação que parece vir do canto esquerdo inferior da tela – como se ali houvesse um foco de luz que se espalha transversalmente – , se destacam os braços de Judite e a cabeça já quase por um fio do general Holofernes.
A tela pode ser dividida em três diagonais de medidas proporcionais.
Cama, colchão de amar
Começando pela diagonal inferior, o lençol branco, cujos amassados se intensificam com o peso da cabeça do general e o peso de dois outros corpos sobre o seu, e o colchão (de amar) antes macio é invadido por rios de sangue espesso vermelho escuro. As rugas nos lençóis de certa forma se estendem no tecido azul do vestido de Judite também amassado. Cama: o lugar em que tantas virgens sangraram.
Pesada espada
Na segunda diagonal, os braços de Judite, alinhados com seus ombros, formam duas paralelas criando um espaço em que cabe a cabeça subjugada de Holofernes na ponta mais baixa. Acima da do general, impera a cabeça feminina limpa, fria e lisa. Não se pode ler no rosto de Judite resquício de hesitação. Ela sabe o que faz. De mangas arregaçadas, Judite empunha com destreza a pesada espada do general, espada com a qual ele teria ameaçado e assassinado tantas pessoas ao invadir a cidade de Bertúlia.
Seduzir
Esta é a execução do momento exato que Judite planejara tão rapidamente, dias antes em sua cidade. Até ali, cada passo seu havia sido calculado para encaixar, convencer, seduzir. Não foi à toa que ela levou a serva, muito menos à toa a escolha dos alimentos, e menos ainda a presença desses alimentos em uma cesta.
A etimologia de seduzir pode nos ajudar a pensar sobre a estratégia - que não deixa de ser bélica - de Judite. Do latim, se-ducere pode ser entendido como desvio de um caminho, de uma verdade. Isto é, ser seduzido é ser levado para outro lugar. É ser conduzido (con-ducere ) para outro lugar.
Na sedução, nunca se está onde se pensa estar.
Ora, o caminho do general era explícito: ganhar uma guerra, conquistar um território, ampliar pela força os domínios do império a que servia.
Já o caminho de Judite era implícito. Ao seduzir Holofernes, ela o desvia de seu caminho e desativa seu dispositivo de poder com gestos de lentidão e suspense. Sua sedução é de caráter simbólico - toda sedução é de caráter simbólico: o jogo, a comida, as joias, a promessa de uma verdade que não chega, nunca chegará.
Segundo Baudrillard, "a sedução é o trabalho do corpo pelo artifício e não pelo desejo". Esta é a incontornável genialidade de Judite: ela usa seu corpo com fim político.
Uma zona

A cabeça de Judite está descoberta e os cabelos se organizam em um coque meio bagunçado. Uma mecha escapa pelo pescoço e lhe cai sobre os ombros nus. O ombro esquerdo mais à mostra e a sombra que acompanha seu torso, atrás, indicam certa folga do vestido – talvez esteja semi-aberto? A cor azul é aí também uma distinção de nobreza. Costurado a ele, seguem faixas de um azul mais forte em que se podem ver detalhes dourados.
Que região descoberta é esta?
A palavra grega zonè se formou no ato de cingir-se e a costura de muitas vestimentas antigas servia para fazer variar a altura da veste presa acima dela e cujas quedas produziam diversos efeitos de plissado e drapeado, segundo Jean-Luc Nancy. À parte à mostra é este pedaço de pele, esta zona que não serve às funções dérmicas ou dermatológicas, mas à finalidade sem fim do sexo. "A pele zoneada é a pele erotizada", dirá o francês.
(Daí carregamos até hoje a ideia de que zona é um lugar caótico, um território separado, a se evitar, a não frequentar.)
Não há como negar certa fixação que esse quadro, sobretudo essa região zoneada, desperta. Os seios que não se veem, mas se podem adivinhar o volume, a posição, a textura. Um jogo de esconde que desvela, mas não muito, não de todo.
Segredo. Sedução.

Como o reverso de Judite, meio coberta, meio exposta, há um homem inteiramente nu coberto apenas por lençóis da parte do peito para baixo.
Se observamos isto junto aos ombros também nus que se mostram no vestido azul levemente frouxo de Judite, podemos supor o que estaria em andamento na tenda do general.
Agora nada: a cabeça de Holofernes conserva a ação dos olhos que parecem fitar o vazio. A boca aberta na intenção de um grito, não grita. Geme. Este boca ficará aberta como um bocejo eterno.
A continuação do sangue
Na terceira diagonal, a serva vestida de vermelho é como uma espécie de continuação vertical do sangue que escorre embaixo. É sob o pescoço dela que está a mão grande de Holofernes. Note que apenas o dorso da mão dele tem igual ou maior tamanho em relação à cabeça da serva.
O escuro do fundo do quadro avança sobre a metade esquerda do seu rosto assim como a de Judite. As personagens ganham um ar sombrio, sombrio como esta cena que se desenrola na madrugada em profundo silêncio. Mas ao mesmo tempo Judite e sua serva guardam certo ar matreiro. Não seria exagero dizer que elas esboçam certo sorriso nos lábios docemente cerrados.

Interessante notar a distribuição de claro-escuro impressa no quadro.
O fundo, à esquerda, do lado da serva é denso, um bloco preto sólido. Esse mesmo fundo, se seguirmos na horizontal em direção à Judite, varia em alguns tons até um marrom claro.
Se na parte de cima da tela impera a paleta negra, está reservada para parte de baixo a claridade, garantida pelo branco perolado dos finos lençóis e pelo grande volume de amarelo-claro do corpo de Holofernes.
Cabeças vão rolar
Pescoço tombando, espada cortando, as mãos trabalhando: a narrativa plástica acontece inteira no gerúndio. Nós, espectadores, invadimos o processo e chegamos ao que parece no último esforço de Judite. Sobre o colchão, um homem já não é mais homem, um acéfalo ainda não é acéfalo.
O corpo bruto (brutal) do grande general Holofernes ainda existe, mas só como impulso e está prestes a se desligar da cabeça. Mais um pouco e já não haverá cabeça sob corpo, pedra sob pedra.
Ele morre pela própria espada – sua arma.
Ele morre pela latência em seu falo – também uma espada.
Um outro modo de perder a cabeça
Falo, acéfalo
Uma visada etimológica sobre a palavra cabeça nos leva para outro amplo campo.
Do grego, kephalos, o acéfalo é precedido do "a", partícula que indica negação, aquilo que falta, portanto, o a-kephalos é o que não tem cabeça.
Ainda entre os gregos, está o phallos, pênis. Vem do indo-europeu bhel-no, em que bhel seria "incha, inflar".
O que seria o ato sexual senão também uma forma de perder a cabeça?
Não à toa, há, sobretudo nas tradições não ocidentais, diversas versões do mito da vagina dentata, isto é, vaginas - trevas, cavernas, maternas - dotadas de dentes prontas a morderem, arrancarem, deceparem os pênis.
Simone de Beauvoir observa que, na maioria das representações populares, a morte é mulher. O caos de onde tudo saiu e para onde tudo deve voltar. A escritora americana Camile Paglia, especula que os mitos em relação à vagina são transcrições diretas do poder feminino e do medo masculino. O horror de ser castrado no momento do coito atribui grande poder feminino, segundo a psicanalista Regina Navarro.
A castração é, então, apenas outro nome para o que chamamos aqui de produção de acéfalos. Castração e perversão: dois conceitos fundantes sobre os quais se desenvolveram tantos estudos e foram tomados de empréstimo por outras matérias desde o século 20.
É necessário recuperar os estudos da psicanálise a partir desta relação e se perguntar se o que Freud chama de perversão feminina poderia ser relido como uma sedução feminina.
Voltarei a isso em outro artigo.
Artemisia: a primeira mulher a entrar na Academia de Arte e Design
A tela é de 1620 e nela se identificam elementos de barroco italiano. Sua autora é Artemisia Gentileschi (1593-1653), filha de um pintor tradicional, se destacou de seus sete irmãos pela autonomia artística que dava às narrativas comuns daquela época.
Ao episódio bíblico de Judite e Holofernes, dedicaria cinco telas. Desta cena, especificamente, há ainda uma versão anterior. Estão presentes o mesmo trio de personagens numa distribuição semelhante, no entanto, o quadro se movimenta mais em uma direção triangular, em que a cabeça da serva seria o topo e Judite e Holofernes estariam nas pontas da base. Neste outro quadro, vemos mais o corpo do general, seu abdômen e suas pernas estão cobertos por um lençol não branco, mas rubro. O movimento dos braços de Judite é desproporcional - a cabeça menor que a largura dos braços -, e em seu rosto se vê não a frieza do quadro de 1620, mas o franzir da sobrancelha – ficam mais evidentes o esforço, a hesitação e alguma dificuldade na degolação.

Relembro Artemisia Gentileschi na onda da campanha #5WomenArtists iniciada pelo National Museum of Woman in the Arts. O movimento é uma chamada à discussão e circulação de artistas mulheres.
Este ensaio faz parte da pesquisa "Perder a cabeça, perder a razão", que investiga narrativas de decapitações na História da Arte como modo de produção de um conhecimento feminino.
Créditos
Tela 1:
Museo Capodimonte - Nápoles
Tela 2:
Galleria Ufizzi - Florença